Quando Lisboa anoitece, Como um veleiro sem velas, Alfama toda parece, Uma casa sem janelas Aonde o povo arrefece
É numa água furtada, Num espaço roubado à mágoa, Que Alfama fica fechada Em quatro paredes d'água
Quatro paredes de pranto Quatro muros de ansiedade Que à noite fazem o canto Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto Alfama cheira a saudade
Alfama não cheira a fado, Cheira a povo, a solidão, Cheira a silêncio magoado, Sabe a tristeza com pão,
Alfama não cheira a fado Mas não tem outra canção
Á janela do meu peito
Dr. Alberto Janes
Lá vai brincando, pela mão de uma quimera Essa garota que fui eu, sempre a sorrir Como se a vida fosse eterna Primavera E não houvesse dores no Mundo p’ra sentir
As gargalhadas vêm poisar na janela E ao ouvi-las tenho mais pena de mim Ai quem me dera rir ainda como ela Mas quando rio, eu já não sei rir assim
Refrão
Tenho a janela do peito, aberta para o passado Todo feito de fadistas e de Fado Espreita a alma na janela, vai o passado a passar E ao ver-se nela, a alma fica a chorar Neste desfile que passa, fica a saudade sozinha Até a graça, perdeu a graça que tinha Desilusões as que tive, enchem a rua…lá estão E a gente vive dos tempos que já lá vão
Lá vem gingando nesse seu passo miúdo Melena preta, calça justa afiambrada Como mudámos, tu que foste para mim tudo… Hoje a meus olhos pouco mais és do que nada
Tuas chalaças de graçola e ironia Eram da rua, andavam de boca em boca E era ver-te não sei o que sentia Talvez loucura, que por ti andava louca
Refrão
Tenho a janela do peito Aberta para o passado etç…
Ai Mouraria
Amadeu do Vale/Frederico Valério
Ai Mouraria Da velha Rua da Palma Onde eu um dia Deixei presa a minha alma Por ter passado Mesmo ao meu lado Certo fadista De cor morena, boca pequena E olhar trocista
Ai Mouraria Do homem do meu encanto Que me mentia Mas que eu adorava tanto Amor que o vento Como um lamento Levou consigo Mas que ‘inda agora E a toda a hora trago comigo
Ai Mouraria Dos rouxinóis nos beirais Dos vestidos cor-de-rosa Dos pregões tradicionais Aí Mouraria Das procissões a passar Da Severa em voz saudosa Na guitarra a soluçar
As duas faces do amor
Moniz Pereira / Emílio Vasco
Antes de amar eu julgava Que o amor que alguém me desse Jamais morresse E que todo o juramento Um ao outro repetido Fosse cumprido
Mas um dia tu chegaste E depressa me provaste Como eu andava iludida
Ah se eu conheço agora As duas faces do amor Uma canta, a outra chora Uma é riso, a outra é dor Agora que à minha custa Aprendi o que era amar Meu coração já se assusta Quando me sente cantar
Se alguma vez, te deixarem Em circunstâncias iguais Sem mais, nem mais E sofreres este tormento De trocar pela verdade A felicidade
Verás que quando a gente tira Ao amor o que é mentira Nem sequer fica a saudade
Ah se eu conheço agora…
Bairro Alto
Carlos Neves / Francisco Carvalhinho
Bairro Alto Aos seus amores tão delicado Certa noite deu nas vistas E saiu com os trovadores E mais o Fado P’ra fazer suas conquistas
Tangeu as liras singelas Lisboa abriu as janelas E acordou em sobressalto Gritaram bairros à toa Silencio velha Lisboa Vai cantar o Bairro Alto
Trovas antigas Saudade louca Andam cantigas A bailar de boca em boca Tristes bizarras Em comunhão Andam guitarras A gemer de mão em mão
Por isso é que ganhou fama de boémio Por condão é fatalista Atiraram-lhe com a lama como prémio Por ser nobre e ser fadista
Hoje saudoso, velhinho Recordando com carinho Seus amores, suas paixões P’ra cumprir a sina sua ‘Inda vem p’ro meio da rua Cantar as suas canções
Trovas antigas Saudade louca…
Boa noite solidão
Jorge Fernando / Carlos da Maia
Boa noite, solidão, Vi entrar pela janela O teu corpo de negrura, Quero dar-te a minha mão Como a chama duma vela Dá a mão à noite escura
Os teus dedos solidão, Despenteiam a saudade Que ficou no lugar dela Espalhas saudades pelo chão E contra a minha vontade Lembras-me a vida com ela
Só tu sabes solidão, A angústia que traz a dor Quando o amor a gente nega, Como quem perde a razão, Afogando o nosso amor No orgulho que nos cega
Com o coração na mão Vou pedir-te sem fingir Que não me fales mais dela Boa noite, solidão, Agora quero dormir Porque vou sonhar com ela
Brincos para brincar
João Linhares Barbosa / Francisco Carvalhinho
Quando eu era pequenina P’ra me enfeitar as orelhas Minha mãe punha-me às vezes Quatro cerejas vermelhas
Refrão
E toda tola lembro-me ainda Que ia p’rá escola vaidosa e linda Brincos vermelhos a dar que dar Pedia espelhos p’ra me mirar
Diziam todos que bem lhe fica Lembra nos modos menina rica Via-os revia-os como riqueza Depois comia-os à sobremesa
Um dia as mais raparigas Filhas como eu da pobreza Puseram-me nas orelhas Dois brinquinhos de princesa
Refrão
E toda triques faces coradas Ia aos despiques nas desfolhadas Vinham meus brincos de algum vergel Não punham vincos na minha pele
Depois mais tarde vi-te e amei Deste-me brincos de ouro de lei Bendito sejas mas na verdade Vejo cerejas sinto saudade
Cabeça de vento
João Linhares Barbosa / Armando Machado
Lisboa se amas o Tejo Como não amas ninguém Perdoa num longo beijo Os caprichos que ele tem
Faço o mesmo ao meu amor Quando aparece zangado Para acalmar-lhe o furor Num beijo canto-lhe o fado
E vejo todo o bem que ele me quer Precisas de aprender a ser mulher
Tu também és rapariga, Tu também és cantadeira Vale mais uma cantiga Cantada à tua maneira
Que andarem os dois ao uma Nesse quebrar de cabeça Que lindo enxoval de espuma Ele traz quando regressa
À noite é de prata o seu lençol De dia veste o pijama de Sol
Violento mas fiel Sempre a arrojar-se aos teus pés Meu amor é como ele Traz más e boas marés
Minha cabeça de vento Deixa lá ser ciumento
Com que voz
Luiz de Camões / Alain Oulman
Com que voz, Chorarei meu triste fado, Que em tão dura paixão me sepultou Que amor não seja a dor que me deixou O tempo, de meu bem desenganado
Mas chorar não estima neste estado Aonde suspirar nunca aproveitou Triste quero viver, pois se mudou Em tristeza a alegria do passado
Assim a vida passo descontente, Ao som nesta prisão do grilhão duro Que lastima ao pé, que a sofre e sente
De tanto mal, a causa é amor puro, Devido a quem de mim tenho ausente, Por quem a vida e bens dele aventuro
Conta errada
João Nobre/José Galhardo
Aprendi a fazer contas Na escola de tenra idade Foi mais tarde ainda às tontas Que fiz contas com alguém
Eu e tu naquela ermida Somámos felicidade Mas um dia fui seguida Que traições que tem a vida Que horas más que a vida tem Tinha um homem fui tentada Somei-lhe outro, conta errada Fiz a prova, não fiz bem
Refrão
Um e um, são dois E é o céu talvez Vem mais um depois Dois e são três Do total tirei, a razão final Somar bem somei Mas no amor errei Fiz as contas mal
A traição mesmo aos traidores Faz contas e contas certas Multiplica as nossas dores E divide uma afeição
Nesta altura tu comigo Tens contas ainda abertas Só te peço que ao castigo Diminuas o que eu digo Nesta negra confissão De uma falsa que é sincera Que te espera, mas não espera Contar mais com o teu perdão
Refrão
Desde ontem que te não vejo
António Calem / Pedro Rodrigues
Desde ontem que te não vejo E o meu pobre coração Não descansa um só momento Vê lá quanto te desejo E quanta recordação Cabem no meu pensamento
Há poucas horas apenas Que de mim te despediste E fiquei triste a pensar Hora a hora as minhas penas Me vão tornando mais triste Pois não te vejo voltar
Meu coração adivinha Que não mais voltas aqui Que não mais te torno a ver A culpa foi toda minha Em me prender tanto a ti E não te saber prender
Digam
Manuel de Andrade
Se hoje alguém, me procurar Digam que não pode entrar, Que não estou para ninguém. Fechem-lhe a minha janela E mesmo que seja ela, Digam, que não estou também.
Digam que a não quero ver, Que não me faça sofrer, Digam-lhe, que se vá embora, Digam que há muito morri, Mesmo que nunca existi, Digam que aqui ninguém mora!
Façam o que lhes lembrar, Digam que não pode entrar, Que não estou para ninguém... Que a porta ficou trancada... Ou então, não digam nada Porque eu sei, que ela não vem!
É tão bom ser pequenino
Letra de João Linhares Barbosa
É tão bom ser pequenino Ter pai, ter mãe, ter avós Ter esperança no destino E ter quem goste de nós
Vem cá José Manuel Dás-me a graciosa ideia De Jesus da Galileia A traquinar num vergel
És moreninho de pele Como foi o Deus Menino Tens o mesmo olhar divino Ai que saudades eu tenho Em não ser do teu tamanho É tão bom ser pequenino
Os teus dedos delicados Nessas tuas mãos inquietas Lembra-me dez borboletas A voejar num silvado
Fui como tu sem cuidados Também já corri veloz Vem cá, falemos a sós Dum caso sentimental Quero dizer-te o que vale Ter pai, ter mãe, ter avós
Ter avós, afirmo-te eu Perdoa as imagens minhas É ter relíquias velhinhas E ter mãe, é ter o céu
Ter pai, assim como o teu Que te dá o pão e o ensino É ter sempre o Sol a pino E o luar com rouxinóis Triunfar como os heróis E ter esperança no destino
Tu sabes o que é a esperança, O sonho, a ilusão a fé? Sabes lá o que isso é, Minha inocente criança…
Tu és fonte na pujança Eu rio que chegou à foz Eu sou ante e tu após Saudades…que saudades… A gente a fazer maldades E ter quem goste de nós
Estranha forma de vida
Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro
Foi por vontade de Deus Que eu vivo nesta ansiedade Que todos os ais são meus E é toda minha a saudade Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida Tem este meu coração Vive de vida perdida Quem lhe daria o condão Que estranha forma de vida
Coração independente Coração que não comando Vives perdido entre a gente Teimosamente sangrado Coração independente
Eu não te acompanho mais Pára deixa de bater Se não sabes onde vais Porque teimas em correr Eu não te acompanho mais
Se não sabes onde vais Pára deixa de bater Eu não te acompanho mais
Estrela Divina
Letra: Jorge Fernando
Um dia foste mãe oh minha mãe Um dia foste Deus deste-me vida E a flor da vida que este mundo tem Sorriu-te natureza agradecida Um dia foste mãe oh minha mãe
Talvez por esse dia ser diferente Havia em teu olhos duas estrelas A iluminar meu corpo ternamente Jurando serem minhas sentinelas Talvez por esse dia ser diferente
Como a Virgem guiou Jesus de Belém Guiaste tu meus passos de menino Mostraste-me o caminho para o bem Foste o meu farol estrela divina Como a virgem guiou Jesus de Belém
Fado das horas
Maria Teresa de Noronha e D. António de Bragança
Chorava por te não ver Por te ver eu choro agora Mas choro só por querer Querer ver-te a toda a hora
Passa o tempo de corrida Quando falas eu te escuto Nas horas da nossa vida Cada hora um minuto
Quando estás ao pé de mim Sinto-me dona do mundo Mas o tempo é tão ruim Tem cada hora um segundo
Deixa-te estar a meu lado E não mais te vás embora P’ra meu coração coitado Viver na vida uma hora
Fado em cinco estilos
Silva Tavares / Maria Teresa de Noronha
Eu quero bem aos teus olhos Mas muito mais quero aos meus Pois se perdesse meus olhos Não podia ver os teus
Se eu de saudades morrer Apalpa meu coração Talvez eu torne a viver Ao calor da tua mão
Se os meus olhos te incomodam Quando estão na tua frente Eu prometo arrancá-los E amar-te cegamente
Gosto de cantar o Fado Acho que o Fado tem raça E que não foi só criado Para cantar a desgraça
Se tenho medo da morte Não tanto como supões Tenho mais medo da vida E das suas ilusões
Fado Rita
Rita Mariano de Carvalho / Alfredo Duarte
Não vistas de preto a dor Nem chores porque parti Põe luto p’lo nosso amor Põe antes luto por ti
Veste de branco essa dor De verde, azul, encarnado Sempre vestiste de cor Quando eu morria a teu lado
Negra só a falsidade Que é toda um ser e não ser É como a chama que arde Sem ganhar e sem perder
Veste de branco a saudade Trá-la de branco vestida Morte só morte é verdade Nesta mentira da vida
Fado Pechincha
Popular
Fui reviver o passado Às ruas da Mouraria Não vi fadistas nem fado Desde a Amendoeira à Guia
Foi ali onde a Severa Cantou o fado e viveu Mas o fado dessa era Morreu quando ela morreu
O casario se aninha Cheio de fé e virtude À volta da capelinha Da Senhora da Saúde
E da velha tradição Já pouco resta hoje em dia Esses tempos que lá vão Não voltam à Mouraria
Flor de Lua
Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves
Solidão, campo aberto Campo chão, tão deserto Meu Verão, ansiedade Meu irmão de saudade Campo Sol, girassol, branco lírio Ilusão, solidão Meu martírio Torna a flor, minha flor Campo chão Torna a dor, minha dor Solidão
Vai no vento, a passar Um lamento a gritar Dó, Ré, Mi Mi, Fá, Sol Dó Ré Mi Girassol Velho cardo, esguio nardo Flor de Lua Mi, Fá, Sol Girassol, eu tua Torna a flor, minha flor Campo chão Torna a dor, minha dor Solidão
Grita o mar, geme o vento Teu olhar, meu tormento Chora a Lua, flor dourada Madressilva, madrugada Canta a Lua, semi nua Flor mimosa Sargaçal, roseiral, minha rosa Chora a fonte, reza o monte Branca asa Canta a flor, cheira a flor Campa rasa
Fora de horas
Belo Marques
Fadista geme a tua desventura Não faças conta ao tempo quando choras Que o Fado em certas horas de amargura Só deve ser cantado fora de horas
Não bate o coração a horas tantas Nem sabe quando ri ou quando chora O Fado é mais sentido quando cantas Se a hora de o cantar passa da hora
O Fado é o destino de uma hora Um dia ela virá, mas não sei quando Quem tem um coração que canta e chora Não pode ouvir as horas que vão dando
Bateu-me o Fado à porta lentamente A quem fui receber de mãos abertas Meu triste coração ficou doente E nunca mais bateu a horas certas
Gosto de ti, quando mentes
J. M. Ferreira do Amaral / Guilherme Coração
Gosto de ti quando mentes A mentir me tens amor A verdade que tu sentes É desprezo, é bem pior
A verdade que não dizes É desdém, não é amor Nós nunca somos felizes Em saber da nossa dor
O teu desprezo é maldade Gostas de mim a fingir Nunca me fales verdade Só te desejo a mentir
Guitarra triste
Álvaro Duarte Simões
Ninguém consegue Por muito forte que seja Alcançar o que deseja Seja qual for a ambição Se não tiver Dando forma ao seu valor, Uma promessa de amor, Que alimente uma ilusão
Uma Mulher É como uma guitarra Não é qualquer, que a abraça E a faz vibrar Mas quem souber, O modo como a agarra Prende-lhe a alma Nas mãos que sabem tocar Por tal razão Se engana facilmente, Um coração, que queria ser feliz Guitarra triste, Que busca um confidente Nas mãos de quem não sente, O pranto que ela diz
Não há ninguém Que não peça à própria vida, A felicidade merecida, Por quem um dia nasceu E de tal forma, a vida sabe mentir, Que a gente chega a sentir O bem que ela não nos deu
Igreja de Santo Estevão
Gabriel de Oliveira / Joaquim Campos
Na Igreja de Santo Estêvão Junto ao cruzeiro do adro Houve em tempos guitarradas Não há pincéis que descrevam Aquele soberbo quadro Dessas noites bem passadas
Mal que batiam Trindades Reunia a fadistagem No adro da Santa Igreja Fadistas quantas saudades Da velha camaradagem Que já não há quem a veja
Stº Estêvão padroeiro Desses recantos de Alfama Faz o milagre sagrado Que voltem ao teu cruzeiro Esses fadistas de fama Que sabem cantar o fado
Jardim do coração
Torre da Guia / Nuno de Aguiar
Tenho um jardim Dentro do meu coração Uma camélia paixão Duas rosas sem defeitos E lá no meio Pequenina e florida A flor da minha vida Um lindo amor perfeito
A minha vida Tem agora mais sentido O meu fado é mais vivido O tempo mais dimensão Só porque tenho Quatro singelas flores Quatro vidas quatro amores No jardim do coração
Quando adormeço Entrego o meu pensamento Ao suave encantamento Das flores do meu jardim E quando acordo Do meu sonho imaginado Sinto o viço perfumado Das flores dentro de mim
A minha vida Tem agora mais sentido O meu fado é mais vivido O tempo mais dimensão Só porque tenho Quatro singelas flores Quatro vidas quatro amores No jardim do coração
Lágrima
Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves
Cheia de penas Cheia de penas me deito E com mais penas Com mais penas me levanto No meu peito Já me ficou no meu peito Este jeito O jeito de te querer tanto
Desespero Tenho por meu desespero Dentro de mim Dentro de mim um castigo Não te quero Eu digo que não te quero E de noite De noite sonho contigo
Se considero Que um dia hei-de morrer No desespero Que tenho de te não ver Estendo o meu xaile Estendo o meu xaile no chão Estendo o meu xaile E deixo-me adormecer
Se eu soubesse Se eu soubesse que morrendo Tu me havias Tu me havias de chorar Uma lágrima Por uma lágrima tua Que alegria Me deixaria matar
Lisboa pequenina
Francisco Radamanto / Amadeu Ramin
Lisboa pequenina, ó meu amor Lisboa popular sempre garrida Tu és quem dá ao fado este sabor Tão doce e tão amargo como a vida
Gosto de ti, Lisboa pequenina, Porque és heróica, humilde e leveirinha E tens a graça ingénua de menina Que vai pousar num trono de rainha
Lisboa pequenina, ó minha amada Dos bairros onde o povo sofre e ama Da Mouraria antiga e destroçada, Do Bairro Alto, e da velhinha Alfama
Foi contigo, Lisboa pequenina Que aprendi a cantar esta canção Este fado, que a vida só destina A quem tem cá por dentro, um coração
Lisboa pequenina, o meu encanto, Voz de guitarra maviosa e fina Por ti eu peço a Deus, neste meu canto Que te abençoe, Lisboa pequenina!....
Maior e menor
Vicente Arnoso / Popular
De saudade fala a gente Quantas vezes sem razão Saudades só quem as sente É que sabe o que elas são
Saudade mágoa sem dor Vivida por toda a gente Que trás no peito um amor Que a vida tornou ausente
Quis te falar e não pude Nada te pude dizer Se os meus olhos te não falam Como havias de entender
Pedi a Deus que me desse Alguma coisa do céu Quem se sabe se foste tu Aquilo que Deus me deu
Malmequeres
Dr. Manuel Paulino Gomes Jr.
Malmequeres, bem me queres São flores de louco encanto Malmequeres, bem me queres Desfolham risos ou pranto
Os jovens apaixonados Perguntam baixinho à flor Se são queridos desejados Se são queridos desejados Ou felizes no amor Refrão
É varina, usa chinela, Tem movimentos de gata Na canastra, a caravela, No coração, a fragata
Em vez de corvos no xaile, Gaivotas vêm pousar Quando o vento a leva ao baile, Baila no baile com o mar
É de conchas o vestido, Tem algas na cabeleira E nas velas o latido Do motor duma traineira
Vende sonho e maresia, Tempestades apregoa Seu nome próprio: Maria Seu apelido: Lisboa
Mataste o meu coração
João Linhares Barbosa / João Maria dos Anjos
Mataste o meu coração E vi-te de olhar enxuto Olhando a sua agonia Como xistos de carvão Muito negros, não de luto Sorriam mais nesse dia
Vi que faziam esforços Por se tornarem tristonhos Fingindo falsos afectos Era o peso dos remorsos Remorsos que são tristonhos Se caiem num olhos pretos
Meu coração lá ficou Sobre a lousa do teu peito Sepultura fria e escura Nem um beijo acompanhou Meu coração que foi feito Para te amar com loucura
Se um dia te vir chorar Esta desgraça de agora Amor por quem me perdi A todos vou afirmar Que é meu coração que chora Ainda dentro de ti
Mentira
Miguel de Barros / Miguel Ramos
Mentiste sem piedade no momento Em que juraste ter-me eterno amor Fizeste uma promessa sem valor Não te assustou o falso juramento
Mentiste cruelmente nessa hora Mentiste sem piedade nesse dia Mentiste sem ter dó do que sofria E sem pensar na dor que sofro agora
Momentos de saudade e amargura Lembrados como um sonho sem igual Que trás o esquecimento do meu mal E que me faz sofrer enquanto dura
Um sonho de alegria e sofrimento Que afasta o meu desejo de morrer Um sonho que me obriga a querer viver E que por ser um sonho é um tormento
Em paga do inferno que me deste Espero alcançar de Deus o teu perdão Oferecendo minha dor em expiação Por tão cruel pecado que fizeste
Minhas saudades
D. Hermano Sobral / Popular
O tempo que vai passando Trás saudades sem saber Saudades que vão ficando Para saudades fazer
Oh meu amor que saudade Porque não hás-de voltar Ao menos p’ra enganar O tempo, a triste verdade
‘Inda tive a veleidade De lutar para esquecer Mas perdi-me no sofrer Se já nem sei desde quando O tempo que vai passando Trás saudades sem saber
Uma saudade perdida Acolheu-se à minha beira Fez-se a minha companheira Dedicada e preferida
E agora desiludida Sem acalentar sequer A esperança de outro viver Levo a vida acarinhando Saudades que vão ficando Para saudades fazer
Mundo de Inverno
Letra e música: Paco Gonzalez
Desde de que te deixei a minha vida É choro de criança abandonada Perdeu o teu amor anda perdida Nos braços de uma longa madrugada
Desde de que te deixei uma ansiedade Impõe-me a sua dor que me devora E á noite na lareira da saudade Aqueço o coração que por ti chora
Refrão
Mundo de Inverno corpo gelado Sem o teu corpo nos lençóis deste meu fado Mundo de Inverno angustia louca Sem o carinho e o calor da tua boca
Desde de que te deixei tudo é tristeza Tudo é caminho errado na minhalma É o arrastar do tempo na certeza Que nunca outro amor meu ser acalma
Desde de que te deixei mora comigo A voz amarga e rouca da paixão E eu sinto que sou outro e não consigo Calar este maldito coração
Nasceu assim, cresceu assim
Vasco Graça Moura / Fernando Tordo
Talvez a mãe, fosse rameira de bordel Talvez o pai um decadente aristocrata Talvez lhe dessem à nascença amor e fel Talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata
Talvez o tenham educado sem maneiras Entre desordens navalhadas e paixões Talvez ouvisse vendavais e bebedeiras E as violências que rasgavam corações
Talvez ardesse variamente em várias chamas Talvez a história fosse ainda mais bizarra No desamparo teve sempre duas chamas Que se chamavam a viola e a guitarra
Pois junto delas já talvez o reconheçam Talvez recusem dar-lhe o nome de enjeitado E mesmo aqueles que o não cantam, não o esqueçam Nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado
O vento
Maria da Graça Ferrão / Américo Duarte
Se o vento soubesse ler Leria em meu pensamento A loucura de te ver A toda a hora e momento
Dizer-te aquilo que sinto Não sei se parece mal Diz que sim, não te desminto O que sou eu afinal
A brisa quando ao passar Murmura entre a folhagem Palavras para te adorar Carinhos à tua imagem
Ouve esta frase sentida Sem amor não há viver Amar é próprio da vida Ai se o vento soubesse ler
Olhos garotos
Linhares Barbosa / Jaime Santos
Diz aos teus olhos garotos Vivos marotos, pretos rasgados Que não andem pelas esquinas Feitos traquinas e malcriados Que não sigam as meninas Simples, ladinas, dos olhos meus De tudo acho capazes Os maus rapazes dos olhos teus
Teus olhos amendoados São comparados a dois cachopos Que quando topam meninas Pelas esquinas, dizem piropos É preciso que lhes digas Que as raparigas nem todas são Como as pedras que há nas ruas Gastas e nuas, sem coração
Diz-lhe tudo sem ralhar Sem te zangar, tem mil cuidados Sim…que p’ra entristecê-los Prefiro vê-los nos seus pecados Não quero os teus lindos olhos Correndo abrolhos, livre-nos Deus Que causassem tais ruínas Estas meninas dos olhos meus
Os meus olhos são dois círios
João Linhares Barbosa / Fado Menor
Os meus olhos são dois círios Dando luz triste ao meu rosto Marcado pelos martírios Da saudade e do desgosto
Quando oiço bater trindades E a tarde já vai no fim Eu peço às minhas saudades Um Padre-Nosso por mim
Mas não sabes fazer preces Não tens saudade nem pranto Porque é que tu me aborreces? Porque é que eu te quero tanto?
És para meu desespero Como as nuvens que andam altas Todos os dias te espero Todos os dias me faltas
Oh Fado reza por mim
Maria Manuel Cid / Joaquim Campos (Fado Vitória)
Eu sou como a noite escura Só vendo o sol da ventura, Quando deixar de viver Minh'alma é nuvem cinzenta, Que só desfaz a tormenta, No momento em que eu morrer
Como a guitarra que chora, Como o gemido da nora, Que andando não tem caminho, Meu coração não descansa E vai batendo sem esperança E vai chorando baixinho
Quando eu deixar de cantar Por minha voz me faltar, Oh Fado reza por mim! Tu tens sempre quem te queira E eu terei por companheira, Esta saudade sem fim!
Ó Pinheiro Meu Irmão
Amália Rodrigues e Carlos Gonçalves
Ribeiro não corras mais Que não hás-de ser eterno O Verão vai-te roubar O que te deu o Inverno
Até a lenha no monte Tem sua separação Duma lenha se faz santos E de outra lenha se faz carvão
Ando caída em desgraça O que é que eu hei-de fazer Todos os santos que pinte Demónios têm que ser
São tão grandes minhas penas Que me deitam a afogar Vêm umas atrás das outras Tal como as ondas andam no mar
Apanho e como as raízes Que estão debaixo da terra Só as ramas as não como Porque essas o vento as leva
Ó pinheiro meu irmão Tu também és como eu Também tu estendes em vão Ó pinheiro irmão Teus braços p’ro céu
Povo Que Lavas no Rio
Pedro Homem de Mello e Joaquim Campos
Povo que lavas no rio Que talhas com teu machado As tábuas do meu caixão Pode haver quem te defenda Quem compre o teu chão sagrado Mas a tua vida não
Fui ter à mesa redonda Beber em malga que esconda O beijo de mão em mão Era o vinho que me deste Água pura, fruto agreste Mas a tua vida não
Aromas de urzes e de lama Dormi com eles na cama Tive a mesma condição Povo, povo eu te pertenço Deste-me alturas de incenso Mas a tua vida não
Povo que lavas no rio Que talhas com teu machado As tábuas do meu caixão Pode haver quem te defenda Quem compre o teu chão sagrado Mas a tua vida não
Primavera
David Mourão-Ferreira / Pedro Rodrigues
Todo o amor que nos prendera Como se fora de cera Se quebrava e desfazia Ai funesta Primavera Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia
E condenaram-me a tanto Viver comigo o meu pranto Viver…viver e sem ti Vivendo sem no entanto Eu me esquecer desse encanto Que nesse dia perdi
Pão duro da solidão É somente o que nos dão O que nos dão a comer Que importa que o coração Diga que sim ou que não Se continua a viver
Todo o amor que nos prendera Se quebrara e desfizera Em pavor se convertia Ninguém fale em Primavera Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia
Rainha Santa
Henrique Rego / Joaquim Campos
Não sabes tricana linda Porque chora quando canta O rouxinol do Choupal É porque ele chora ainda Pela rainha mais santa Das santas de Portugal
Rainha que mais reinou No coração da pobreza Que em seu faustuoso Paço Milagreira portuguesa Que no seu alvo regaço Pão em rosas transformou
E as lindas rosas geradas Por um milagre fermente Que a Santa Rainha fez Viverão acarinhadas Com amor eternamente No coração português
Santa Isabel se algum dia Seu nome de eras famosas Fosse esquecido afinal Outro milagre faria De nunca mais haver rosas Nos jardins de Portugal
Roseira Brava
Letra: Manuel de Andrade Música: Pedro Rodrigues (Fado Primavera)
Andei a ver se encontrava Alguma roseira brava Florida de murchas rosas Qualquer coisa que lembrasse Um resto só que ficasse Das nossa horas ditosas
Mas o céu enegreceu O vento tudo varreu E de nós nada ficou Na campina nua e fria Nem uma roseira havia Nem uma rosa murchou
Morreu triste o meu intento Morreu levado plo vento Que as roseiras embalava Voltei ao cair do dia Pois no campo não havia Nem uma roseira brava
Súplica
Frederico de Brito / Ferrer Trindade
Já quantas vezes Te pedi que me esquecesses Ou que ao menos não viesses Não voltasses mais aqui Pois tu não vês Que o mau viver que tu me dês Só pode ser por malvadez E eu não espero mais de ti
Já quantas vezes Te implorei por caridade Que encobrisses a maldade Que há-de ir sempre onde tu vais Eu poderei não ser melhor Fugir à lei do que amor Sofrer bem sei Mas prender-me nunca mais
Ainda agora Eu bem sei que tu não gostas Vou pedir-te de mãos postas Que me dês o que era meu Vagas paixões, meus tristes ais Mil tentações e pouco mais Do que ilusões Que o amor…esse morreu
Tarde Triste
Resende Dias e José Guimarães
Nos meus olhos há tristeza Ao recordar Essa tarde de má sorte Aonde a morte Marcou lugar
Julgo ver em cada rosto a dor A vincar triste emoção Ver findar aquela vida em flor Fez sangrar meu coração
Anda a saudade Lembrando em mim Aquela tarde Que foi de triste fim Já não vejo a figura valente Que fazia vibrar de emoção Tudo agora parece diferente Chora a saudade, meu coração
Grita a praça entusiasmada Olé! Olé! Mas a sorte despeitada Fez a montada perder o pé
Arrastou o cavaleiro audaz Que ao cair pisou no chão E ficou inerte e incapaz Sem ouvir uma ovação
Tinha o nome de saudade
João de Freitas / João Maria dos Anjos
Tinha o nome de saudade Aquela a quem pertenci, Com toda a alma e fervor Deu-me tanta felicidade, Que eu nunca mais esqueci, Essas loucuras de Amor
Vivendo a nossa loucura, A queimarmos em seu lume, Passámos noites inteiras Com mil zangas à mistura, Pois as paixões sem ciúme, Não podem ser verdadeiras
E um dia tudo acabou, Deixei de ser o preferido, Daquela a quem tanto amei, Ela nunca mais voltou, E eu, com o orgulho ferido, Também, não a procurei
E contra a nossa vontade, cada um seguiu porém, na vida, diferentes linhas hoje é d'outro essa saudade, Mas há pouco disse alguém... Que sente saudades minhas!
Tipóia Enfeitada
Carlos Conde / Frederico de Brito
Sonhei que fugi contigo Numa tipóia enfeitada E que fiquei de surpresa Num solar de estilo antigo Mesmo à beirinha da estrada Numa aldeia portuguesa
Levei a minha guitarra As cantigas que aprendi A minha voz e depois Numa dolência bizarra Eu cantava só p’ra ti Para mim…para nós dois
Assim que a manhã rompia Nós montávamos cavalos Os tais de sangue irlandês E andávamos todo o dia Sem cuidados nem abalos Pelos campos lés a lés
Sonhei que fugi contigo Numa tipóia enfeitada E no teu solar vivi Ai quem me dera o castigo De te seguir acordada Como a sonhar te segui
Tive um barco
Letra: Manuel de Andrade Música: Casimiro Ramos
Tive um barco e dei-lhe um nome Dei-lhe um nome feito ao vento Dei-lhe um nome feito ao mar Tive um amor e deixou-me Ficou no meu pensamento Mas não mais o vi voltar
O seu olhar era a bruma O seu jeito era o do mar Em tardes de calmaria E eram cristais de espuma Os seus dentes ao cantar E os seus olhos se sorria
Partimos pla barra fora Meu amor achei-o estranho Mais tarde por lá ficou Onde foi que importa agora Tive um barco e nada tenho E o meu amor não voltou
Trem Desmantelado
Carlos Conde / Raúl Pereira
Fui hoje ver um trem desmantelado Na Quinta do Zé Grande em Odivelas Se há relíquias que são traços de fado Aquela traquitana é uma delas
Foi lá que a Júlia Mendes certa vez Ferida de ciúme e paixão cega Entrou no pátio velho de um Marquês Para uma ceia típica na adega Entrou no pátio velho de um Marquês
Noite alta, canjirões, fado e rambóia O Zé da Praça entrou, fez burburinho Trouxe a Júlia na frente p’ra tipóia E fizeram as pazes no caminho
Quantas ceias iguais, de amor e fado De ciúme e de sangue, algumas delas Se viveram no trem desmantelado Que eu vi hoje na Quinta de Odivelas
Vamos Os Dois Para A Farra
João Linhares Barbosa / Domingos Camarinha
Vamos os dois para a farra Passar o dia na estroina Levo um saiote de barra E tu a cinta e a boina
Os meus vestidos discretos Acho que os não devo pôr Bastam-me os teus olhos pretos Que nunca mudam de cor
Vou cantar um outro fado E vais gostar de me ouvir Hoje não quero pensar Hoje apetece-me rir
P’ra não fugir ao costume Se os meus fados e motejos Te provocarem ciúme Tapas-me a boca com beijos
Acordei com este jeito De lançar um desafio Ao teu coração vadio Que anda a faltar-me o respeito
Vida Enganada
Á luz do Fado, certo dia Uma guitarra nos cantava A voz cansada nos dizia Da solidão da nossa saudade
Viver sem amor É vida fingida Não ter um amor É não ter calor Na noite cerrada Viver sem amor Sem Sol contra o frio Sem lua sem rio É vida sem vida Vida enganada
Á luz da Lua, á beira rio Na voz do vento que passava Longo silêncio me dizia Que já não és a minha saudade
Vieste Depois
João Linhares Barbosa / Jaime Santos
Cantar para te agradar, para te prender Sorrir para te atrair, já não pode ser Não queres, não ligas, a nada te prendes As minhas cantigas, não as compreendes
Não quero um homem sincero Sem falsos ciúmes Também preciso de alguém Que me oiça os queixumes Não sei se é pecado Julgo que perdoes O mal confessado Eu vivo p’ra dois Primeiro p’ro Fado P’ra ti só depois
A sorte, aqui para nós Põe cartas na mesa O amor assim não tem cor Nem cor nem purezaNão acho bonito A gente cansar-se No vago delito De um longo disfarce
O Fado não é culpado Da minha ameaça Sem ele a vida é cruel Sem crença e sem raça Alegre pareço, mas não é assim Chorar apeteço O Fado p’ra mim Foi o meu começo Será o meu fim
Vou Dar de Beber à Dor
Dr. Alberto Janes
Foi no Domingo passado que passei Á casa onde vivia a Mariquinhas Mas está tudo tão mudado Que não vi em nenhum lado As tais janelas que tinham tabuinhas
Do rés-do-chão ao telhado Não vi nada, nada, nada Que pudesse recordar-me a Mariquinhas E há um vidro pregado e azulado Onde havia as tabuinhas
Entrei e onde era a sala agora está Á secretária um sujeito que é lingrinhas Mas não vi colchas com barras Nem violas nem guitarras Nem espreitadelas furtivas das vizinhas
O tempo cravou a garra Na alma daquela casa Onde as vezes petiscávamos sardinhas Quando em noites de guitarra e de farra Estava alegre a Mariquinhas
As janelas tão garridas que ficavam Com cortinados de chita às pintinhas Perderam de todo a graça Porque é hoje uma vidraça Com cercadura de lata às voltinhas
E lá p'ra dentro quem passa Hoje é p'ra ir aos penhores Entregar ao usurário umas coisinhas Pois chega a esta desgraça toda a graça A casa da Mariquinhas
P'ra terem feito da casa o que fizeram Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas Pois ser casa de penhores O que foi viveiro de amores É ideia que não cabe cá nas minhas
Recordações do calor E das saudades o gosto Que eu vou procurar esquecer Numas ginjinhas Pois dar de beber à dor é o melhor Já dizia a Mariquinhas
Zanguei-me Com o Meu amor
João Linhares Barbosa / Jaime Santos
Zanguei-me com o meu amor Não o vi em todo o dia Á noite cantei melhor O fado da Mouraria
O sopro de uma saudade Vinha beijar-me hora a hora P’ra ficar mais à vontade Mandei a saudade embora
De manhã arrependida Lembrei-o pus-me a chorar Quem perde o amor na vida Jamais devia cantar
Quando regressou ao ninho Ele que mal assobia Vinha assobiar baixinho O fado da Mouraria