Poetas – Compositores – Músicos – Fadistas

“E é isto que é preciso meus senhores, p’ró fadinho ser cantado com todos os matadores”

Agradeço a colaboração

de

Fernando Batista - Porto * Manuel Carvalho - Porto * Maria de Lurdes Brás * Ilídio Dias * Vilma Joaquim Perez - Santos - Brasil


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sábado, 15 de março de 2008

Luis Ribeiro

Entrevista à Voz do Nordeste

Luís Manuel Ribeiro, bragançano, guitarrista.
Tocou para fadistas conhecidos, como o vinhaense Rodrigo e Frei Hermano da Câmara, e até para a Rainha do Fado, Amália Rodrigues.
Tocou também em vários programas da televisão, de que se destacam o “Bravo Bravíssimo”, “Diogo Infante” e “Chuva de Estrelas”, além de outros.
Aproveitámos a sua passagem por Bragança, no gozo de um curto período de férias, para uma breve entrevista.
P – Há quanto tempo saiu de Bragança para Lisboa?
R – Saí em 1972.
P – E quando saiu já foi com o objectivo de se dedicar à música?
R – Não. Eu fui para Lisboa para me empregar nos TLP, agora Portugal Telecom.
P – E foi em Lisboa que aprendeu a tocar guitarra?
R – Em Lisboa é que se encontram de facto os grandes mestres da guitarra, embora eu já levasse daqui esse bichinho, como se costuma dizer. È que o meu pai também tocava guitarra e um dia apareceu-lhe na Serração (Serração Ribeiro) um Sr. de Bragança (mais tarde viemos a saber que era o Sr. Guitarreiro) para ver se o meu pai lhe arranjava umas madeiras para ele fazer uma guitarra. E o meu pai nessa altura fez-lhe a seguinte proposta: sim, sr., eu arranjo-lhe as madeiras e o sr. faz-me uma guitarra lá para casa.E assim foi. Nessa altura tínhamos um vizinho que nos fazia o transporte de madeiras, e que era o Sr. Adérito, duma aldeia aqui perto. Esse Sr. também tocava guitarra e comecei a vê-lo afinar a guitarra. Apanhei-lhe o gosto e comecei também a tocar.
P – Em Lisboa, como é que começou a entrar nos meandros do fado?
R – Em Lisboa estive dois anos sem tocar na guitarra. Entretanto, no emprego reencontrei um antigo colega da Escola Industrial de Bragança, que me falou na Casa de Trás-os-Montes. Aí conheci uns senhores do Ousilhão, que eram primos dos Cancelas e que tinham lá umas guitarras. Um desses Cancelas apresentou-me um senhor já de uma certa idade e que dava aulas de guitarra. Foi aí que aprendi. A partir de uma certa altura, eu e um alentejano que tocava viola começámos a juntar-nos na Casa de Trás-os-Montes, todas as terças-feiras, para treinar. Aquilo acabou por deixar de ser uma noite de treino para ser uma noite de fado. Nessas noites a Casa estava sempre cheia. Foi o período áureo da Casa de Trás-os-Montes. Depois disso, comecei também a aparecer nalgumas Casas de Fado, no Bairro Alto. Havia ali umas tascas, que agora já não existem, em que havia o chamado fado amador. Então, todas as noites, juntávamo-nos nessas tascas. E aí apareciam outros guitarristas. Depois, pouco a pouco passei a ser chamado para acompanhar alguns fadistas.
P – Qual foi o primeiro fadista que acompanhou?
R – Dos mais conhecidos, foi o Rodrigo. Mas até chegar ao Rodrigo eu acompanhei muitos outros. É que lá em Lisboa existem muitas casas onde, ao fim de semana, se toca o chamado fado vadio. São casas onde se comem uma febras e se bebem uns copos e onde aparece gente do povo para cantar o fado, acompanhada por guitarristas chamados previamente. Aí é que se aprende verdadeiramente a tocar guitarra, porque um fadista canta o fado corrido, outro o fado menor, etc., etc. Um dia eu estava na Casa de Trás-os-Montes e fui apresentado ao Rodrigo: está aqui um rapaz lá de cima, de Trás-os-Montes, que toca guitarra. (O Rodrigo também é daqui.) Foi assim que comecei a tocar para o Rodrigo. Nessa altura o Rodrigo tinha muitos espectáculos e havia necessidade de, quando ele saía, ficar alguém a assegurar a Casa, em Casicais. Eu estive aí 3 anos. Depois surgiu-me um convite para trabalhar no Hotel Altis, do antigo presidente do Benfica - o sr. Fernando Martins. Aí, eu trabalhava todas as noites, das 21 horas à meia-noite. Nesse hotel estive 5 anos.
P – No Hotel Altis quais eram os fadistas que acompanhava?
R – Aí toquei para a Lenita Gentil, para a Simone de Oliveira, para a Maria Valejo, para a Maria do Espírito Santo e para muitos outros.
P – Qual foi a etapa seguinte?
R – Depois, passei por uma Casa da Simone de Oliveira, que só funcionou durante 6 ou 7 meses. A partir daí passei a trabalhar com agenda solta. Pedem-nos um espectáculo e eu, se tenho a agenda livre, marco. Actuamos sobretudo em Congressos e outros eventos organizados nos hotéis, principalmente durante as épocas baixas em termos turísticos.
P – Nunca tocou para a rainha do fado, para a Amália?
R – Sim, toquei. Eu fui trabalhar para a Amália no dia em que ela fazia 70 anos, em 1990, em Santiago de Compostela.
P – Quantos anos trabalhou para a Amália?
R – Toquei durante 5 anos, um pouco por todo o mundo.
P – Em que países esteve com a Amália?
R – Tocámos em todo o lado. Na maior parte dos países da Europa, no México, em Saltilho, onde houve aquela bronca da selecção nacional, no Canadá, no Chile, no Japão, na América, por 3 vezes, no Brasil, também por 3 vezes, na Argentina, em Cabo Verde, na Guiné, etc., etc.
P – Como é que era a Amália no trato humano?
R – A Amália em termos humanos era de um trato que já nem se usava. Tinha uma formação fora de série. Tanto discutia pintura como tourada, como outro assunto qualquer. Era extremamente esperta e não se deixava ir em conversas, mesmo políticas. Ela sabia que se aproveitavam dela.
P- A Amália teve algum percalço, nalguma das suas actuações?
R – Percalço, propriamente, não. Uma vez é que estávamos já no aeroporto em Madrid, a caminho do México, e ela sentiu-se mal. Ainda se pôs a hipótese de cancelar o espectáculo, mas o empresário disse que a responsabilidade era muito grande, porque se tratava da I Cimeira Ibero-Americana, e tivemos que ir.
P – Depois da Amália, deixou de tocar?
R - Não, continuo a tocar. Acompanho artistas como: Maria Armanda, Marina Rosa, João Braga e outros.

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